segunda-feira, 13 de outubro de 2008

FUNDAMENTOS INFUNDADOS.

O COLECIONADOR.

Então o sujeito colecionava dores
Não eram apenas rumores,
Era o que dele se sentia
Na via de mão dupla de sua vida
Para onde ia
Andava sempre magoado Armado!
Seus furores eram vazios
Berrava sobre tudo como um gato mia
Porquê, meu Deus, porquê? Gemia.
A fria pistola era seu único dado
Sua sorte destroçada
única rês de seu gado
Sua virilidade acabrunhada.
Era assim esse colecionador.
Colecionava o caos.
Sem um peito feminino para dormir
Ou por a mão, sentindo do um coração da mulher
Aquela batidinha linda e fina
Juntava-se a triste solidão, sua sina
Gritava em silêncio contra todos, contra os “maus”!
Colecionava dor, sem um bônus de paz sequer
Frio como um palito de fósforo queimado
Achava-se da vingança, um reles soldado,
Preso, vil, medíocre até nos sonhos que tinha
As culpas eram de todos
Sim- sua e minha.
E assim, patético fantoche dos medos
Caminhava perigoso
Como um galo na rinha
Como um fanático silencioso
Como um doido em seus arremedos.
Então num parque, pensando em morte
Viu Maria Antônia, tão bela, tão forte
E por algum motivo bizarro, jocoso
Incapaz de se descrever
Ela apaixonou-se pelo sujeito horroroso
Não riam, eu peço, é difícil dizer.
Por um tempo ele deixou seus receios
Engravidou seu sorriso
De belos dentes recém-nascidos
Por ela pensou fazer o que fosse preciso
De qualquer modo, conseguir, ter.
Não importando por quais meios
Os “lances”obtidos!
Num final de tarde cheio de amor
Foi ao parque onde conheceu Antônia
Quase em paz, quase sem dor
E lá próximo aos roseirais
Que estrondo, quanto mal, quantos áis!
Viu sua bela abraçar-se a um rapaz.
Paralisou-se por um momento
Não mais colecionava dores,
Não mais amava o sofrimento.
Ah, que triste fundamento!
Tirou do casaco a pistola fria
Com o rosto de quem a morte via
À namorada mostrou-se com vagar
Ela assustada sorriu Ia o moço apresentar- seu amigo, quase irmão!
Mas um raio, arrebentou no coração
Um estampido é que no parque se ouviu
Então caído sobre a calçada
Ficou imóvel o sujeito
Com o peito todo vermelho Aquele que colecionava dores
Sem amigos, sem a mulher amada
No limbo, finalmente
Flutuando sobre o nada!
Antônia abaixou-se sobre o moço
Hirto, duro feito ferro
Beijou sua mão, seu rosto, seu peito
O pescoço, seus olhos cor de alface
E borrou-se de um batom amargo
Por todo seu mudo berro
Por toda sua face.

Rei.


DE OLHOS FECHADOS.

Achei que se fechasse os olhos
E pensasse muito forte,
Ela retornaria
Por minha sorte.
Achei que se esquecesse meus erros
Ela também esqueceria.
Mas fechando os olhos é que esqueci
Que isto só aumenta as distâncias.
Porque quando fechei os olhos não vi
Que meus arroubos
Minhas discrepâncias
Minhas fugas, minhas noitadas
Meus roubos
De sua paz
Talvez não a deixassem voltar jamais.
Quando a vi de longe
Encontrei meus olhos com os seus
E este encontro desencontrado
Que fez de mim um monge abobalhado
Ao mesmo tempo me disse-
“Ela ainda te ama!”
Então tudo que era face se fez rubor
Tudo que era silêncio se fez clamor
Tudo que deveria ser paciência
Virou cama!
Pobre ciência
Pobre ciência do amor!
No outro dia é que vi
Que fechando os olhos
Realmente a perdi.
Estava no bilhete preso ao travesseiro
Escrito delicado, com tanto esmero
Sem um tremor
Sem lágrimas e sem rancor-
“Preciso ir. Não te vejo mais.”
Abri muito os olhos então
Corri à praça
Para pedir-lhe perdão
Um sorriso, uma graça
Uma graça qualquer!
Mas era tarde.
Já tinha ido.
Minha mulher...
Agora que ando de olhos bem abertos
Para ver se a percebo,
Agora que cresci e posso merecê-la,
Agora que enxergo- meu mais recente medo
Minha estúpida agonia
É a de nunca mais poder vê-la.

Rei.


























O POETA ANDARILHO

Contudo, seu coração rasgando
Como do barco a escuma
Esperava o célere momento
Que “desarruma”
A beleza da cama já desfeita.
E sabendo que se levanta e anda
Tanto quanto se queda e deita,
O poeta errante
Mais uma vez viu-se distante
Depois de uma noite ardorosa
De outra mulher perfeita.
De encontro à outra rebordosa,
Outra noite, outra caminhada,
Quem sabe outra cama arrumada
Para se fazer desfeita.
Talvez esta outra mulher
Os lençóis deixe
Para mais tarde arrumar
Talvez outros sóis a raiar
Num mesmo ninho
Faça feliz o errante
Como quem bebe garrafas de vinho.
Pois quem sabe se sabe amar
Ou se apenas ama o amor
Tão andarilha criatura?
Ah, doce sabor!
Quem sabe só queira, ou é o que sente
Ah, Doce clausura!
Mais do que tudo no ar
Ficar só com ela, eternamente
Num mesmo lugar.

Rei.

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